30/09/2026
Projeto prevê ocupação de 260 mil metros quadrados em área de recarga hídrica na Bacia do Rio das Velhas, com apenas 25% destinados à recuperação ambiental
Por Bruno Pereira
A mineradora Anglo Gold Ashanti quer transformar o território das antigas Minas Velha e Grande, em Nova Lima, exploradas por séculos e desativadas desde 2001, em um novo bairro. O empreendimento, batizado de “Projeto Nova Vila”, prevê a ocupação de 260 mil metros quadrados e promete “um bairro integrado, sustentável e voltado ao uso público”. Segundo informações disponibilizadas pela Prefeitura de Nova Lima, a proposta é discutida pelo menos desde 2022.
Para o professor Marcus Vinícius Polignano, um dos coordenadores do Projeto Manuelzão, a empreitada na verdade trata-se de uma tentativa de reconversão, processo de transformação para explorar um território de outra forma. Na prática, a mineradora estaria gerando lucro imobiliário sem cumprir a responsabilidade de reparação dos danos causados por décadas de mineração.
“Ou seja, ao invés de fazer um processo de reparação, vai fazer um processo de reconversão financeira, provocando um impacto maior ainda, em uma área que é o alto Rio das Velhas, que depende dessas regiões de recargas para alimentar a bacia, que é fundamental para o abastecimento da capital”, ressalta o professor. “São mais de vinte hectares, mais de vinte campos de futebol. Uma área que tem ainda uma mata extremamente preservada, inclusive de mata atlântica, de recarga hídrica e aquífero”.
Não bastasse os impactos já provocados pela atividade minerária na região, apenas 25% da área estão destinados à recuperação ambiental, o que põe em xeque o discurso sustentável proposto pelo empreendimento. “Isso é ínfimo, sabendo que você vai provocar mais danos do ponto de vista ambiental, em um território que já demanda por corredores ecológicos, manutenção de biodiversidade e manutenção de recarga hídrica”, critica Polignano. O professor alerta ainda ao perigo das empresas transformarem esse plano de reconversão de territórios de minas em um modus operandi.
“Se isso se tornar a prática de fechamento de minas no Alto Rio das Velhas, na Serra da Moeda, do Sinclinal, isso é um futuro absolutamente insano, nós vamos destruir ao invés de reparar, de consolidar aquilo que deveria ser: devolver a natureza; uma vez que o lucro já foi realizado plenamente pelo capital naquela situação, sem necessidade de uma reconversão financeira para um lucro descabido e desmedido”, defende Polignano.
Os documentos públicos do projeto, entre eles uma apresentação de slides, o Estudo de Impacto de Vizinhança e o Relatório de Impacto de Circulação, revelam que a área é “atravessada pelo Ribeirão Cardoso, contribuinte do Córrego do Ribeirão Água Suja que deságua na Bacia do Rio das Velhas”. Os mesmos documentos registram histórico de alagamentos na região e alertam para a proximidade do empreendimento com sete barragens de mineração e suas respectivas manchas de inundação. “Não tem cabimento um projeto desse e só se justifica por uma ganância imobiliária desmedida”, conclui o professor.
Mesmo com as ressalvas e inconsistências apresentadas pelo projeto, o empreendimento recebeu aprovação da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), pela Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que levanta dúvidas sobre o rigor na exigência de recuperação ambiental efetiva das áreas mineradas.
Enquanto a AngloGold avança com um projeto imobiliário, um exemplo de outro caminho possível já existe na região metropolitana. A antiga mina da Ferrobel, instalada aos pés da Serra do Curral desde 1960 e encerrada em 1979, deu lugar a um parque urbano criado em 1982, o Parque das Mangabeiras. Hoje, o parque é a unidade de conservação mais antiga da capital mineira e uma referência nacional de recuperação ambiental em área minerada.
“O Parque das Mangabeiras foi recuperado, apropriado e devolvido de uma forma importante para a cidade, interativa, ambientalmente sustentável e que ajuda o ecossistema da região”, afirma Polignano. “Esse é exatamente o inverso, é o modelo que ao invés de equacionar o equilíbrio eco-ambiental, ele provoca uma devastação de vinte hectares. É inaceitável, irresponsável, incalculável o prejuízo ecossistêmico e do futuro disso”.
Na sexta-feira, 8, foi aprovada na Câmara Municipal de Nova Lima uma Operação Urbana Consorciada na Câmara de Nova Lima, envolvendo a AngloGold, uma construtora e a Prefeitura, que agora segue para licenciamento municipal.
Edição: Enaile Almeida