Brasil perdeu 15% da superfície de água nos últimos 30 anos, aponta relatório do MapBiomas

30/08/2021

Maiores reduções vêm de mudanças no uso da terra, como transformação de florestas em pastos e plantações, além da construção de represas; Minas Gerais é o 3º estado que mais perdeu água

Uma análise de imagens de satélite do MapBiomas, iniciativa do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, na última segunda-feira, 23, revelou que o Brasil perdeu 15,7% de sua superfície de água de 1985 a 2020. De acordo com o relatório, intitulado Brasil Revelado 1985-2020: A dinâmica da superfície de água no território brasileiro, no ano passado o país tinha 16.631.572 hectares de água, o equivalente a 2% do território nacional, e sofreu uma perda de 3,1 milhões de hectares se comparados aos 19,7 milhões de 1991. Todos os biomas, todas as regiões hidrográficas e 23 dos 27 estados tiveram redução.

Segundo o coordenador do MapBiomas Água, Carlos Souza Júnior, em reportagem do portal do MapBiomas, essas perdas estão relacionadas, principalmente, ao uso da terra e à construção de represas.

Gráfico apresentado no relatório do MapBiomas Água. Clique na imagem para melhor visualização.

“A dinâmica de uso da terra baseada na conversão da floresta para pecuária e agricultura interfere no aumento da temperatura local e muitas vezes altera cabeceiras de rios e de nascentes, podendo também levar ao assoreamento de rios e lagos. A construção de represas em fazendas para irrigação e bebedouros ao longo de rios diminui o fluxo hídrico; e, em maior escala, as grandes represas para produção de energia, com extensas superfícies de água sujeitas a processos de evapotranspiração, que levam a perda de água para atmosfera”, afirmou Souza Júnior ao portal do MapBiomas.

Gráfico apresentado no relatório do MapBiomas Água. Clique na imagem para melhor visualização.

O Pantanal, bioma que mais perdeu água no período analisado – uma redução de 68% – tem muitas usinas, além de dezenas de outras barragens, com pouca contribuição para o sistema elétrico e um grande potencial de impactos, segundo o MapBiomas. O estado do Mato Grosso do Sul, localizado no Pantanal, teve a maior perda relativa e absoluta do país: 57% de redução. Com a diminuição da vazão nas hidrelétricas, é necessário ligar as termoelétricas, que poluem o ar e têm custo operacional maior, portanto são mais caras.

Além disso, a região do Pantanal, assim como a Amazônia, que perdeu 10% de superfície, vem sofrendo com queimadas recordes, como as do ano passado, que destruíram aproximadamente 30% de todo o bioma. Isso é causado por uma seca atípica, mas 90% dos focos de incêndio são provocados pela ação humana. As queimadas e o desmatamento, portanto, também estão ligados à perda de água e a mudanças de uso da terra – queima e derrubada de florestas para dar lugar à agropecuária.

Gráfico apresentado no relatório do MapBiomas Água. Clique na imagem para melhor visualização.

A dinâmica da perda de água não é restrita a só um local, assim como outros fatores de mudanças climáticas, cujos efeitos se espalham pelos territórios. “Os chamados rios voadores são ventos que trazem a umidade por milhares de quilômetros de distância da Amazônia para a região central do Brasil”, explica o professor Pedro Luiz Cortês, da Universidade de São Paulo (USP), “mas têm cada vez menos umidade, por causa do desmatamento”.

Gráfico apresentado no relatório do MapBiomas Água. Clique na imagem para melhor visualização.

Em todas as nove regiões hidrográficas brasileiras e em 54 das 76 sub-bacias houve redução. As maiores perdas foram nas regiões do Atlântico Leste (-26%), Atlântico Nordeste Oriental (-23%) e São Francisco (-15%). As três abarcam do Ceará a Minas Gerais, onde nasce o rio São Francisco, e seus afluentes como o rio das Velhas e o Paraopeba – hoje em crise hídrica histórica, relacionada à seca e aos impactos do crime da Vale. Minas Gerais fica em 3º lugar, com um saldo negativo de mais de 118 mil hectares perdidos na série histórica e só fica atrás do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O estado é o 5º em superfície total, atualmente.

Gráfico apresentado no relatório do MapBiomas Água. Clique na imagem para melhor visualização.

Para o coordenador do MapBiomas Água, ainda é possível reverter esses processos com políticas e gestão de recursos hídricos. “O primeiro passo é ter um diagnóstico do problema na escala de bacias hidrográficas para identificar quais fatores estão comprometendo a disponibilidade de recursos hídricos. Segundo, é possível desenvolver um plano de ação multissetorial para mitigar e até mesmo reverter o problema. Mas, não podemos nos esquecer que boa parte da solução vai depender em reduzir as emissões de gases estufa para controlar o aumento da temperatura global”.

Confira o vídeo de apresentação do MapBiomas Água:

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