30/09/2026
Comunidades do entorno temem que região seja vendida e destruída por pressão da especulação imobiliária
Por Bruno Pereira
O Projeto de Lei (PL) 580/2025, que reconhece o valor ecológico, paisagístico, cultural e comunitário da Mata do Belmonte, na Região Nordeste de Belo Horizonte, foi derrubado em primeiro turno na segunda-feira, 11 de junho, em votação na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH).
A proposta, criada em setembro de 2025, destaca a importância socioambiental do espaço para a regional nordeste, como uma das poucas áreas verdes da região e pedia que a área de cerca de 123 mil metros quadrados fosse comprada pela prefeitura e anexada ao Parque Escola Jardim Belmonte, de 41 mil metros quadrados.
As regiões são próximas, divididas pelo córrego Gorduras, que integra a sub-bacia do Ribeirão do Onça, um dos afluentes da Bacia do Rio das Velhas, responsável pelo abastecimento de Belo Horizonte e parte da região metropolitana da capital.
Matheus Dias, integrante do Projeto Manuelzão e analista ambiental pelo Instituto Guaicuy, destaca a relevância da Mata do Belmonte para a biodiversidade local. “Ela é um dos poucos maciços vegetais remanescentes da região nordeste de Belo Horizonte, e em cerca de 15 a 20% de sua extensão é área de preservação do entorno de nascente ou do córrego, além de ajudar no que resta de Mata Atlântica e de vegetações nativas importantes para a capital e para a regional nordeste”, explica o engenheiro ambiental.
Durante a votação, os vereadores Bruno Pedralva (PT) e Pedro Rousseff (PT) tentaram derrubar a votação por meio dos artigos 142 e 155 do regimento interno, por entenderem que a articulação com a prefeitura para compra do terreno não estava totalmente concluída, mas ambos os recursos foram derrubados pelo Sargento Jalyson (PL) e acatados pelos demais. O vereador alegou que o projeto é um obstáculo em cima do lote do Instituto de Previdência dos Servidores Militares de Minas Gerais (IPSM), e que compradores chegaram a desistir da aquisição do terreno pela iniciativa.
“Entendemos que talvez não tenha sido o melhor momento para pautá-lo, em virtude da polarização político-partidária instalada, mas reafirmamos que as questões ambientais têm que estar acima das questões ideológico-partidárias, pois as consequências do não fazer e do não cuidar, em maior ou menor escala, afetarão a todos”, avalia Adriane Rodrigues, técnica em meio ambiente e integrante do Movimento Salve a Mata do Belmonte. “Quando a natureza nos oferta ar puro, água, a sombra das árvores e o canto dos pássaros, ela não nos pergunta de qual partido político nós somos”. Há pelo menos uma década, o movimento composto por moradores do entorno da área e ambientalistas defende a preservação da Mata.
Apesar de ter sido aprovado por todas as câmaras temáticas e, portanto, qualificado para votação, o PL foi derrubado em primeiro turno, com 17 votos contrários, 11 favoráveis e 4 abstenções.
A busca pelo reconhecimento da Mata começou por meio da pressão de moradores da região pela proteção da área verde, que apesar de sua importância é uma propriedade privada pertencente ao IPSM e desde 2024 é alvo de disputas. O proprietário do terreno manifestou interesse em vender a região, que foi colocada em leilão pela Minas Gerais Participações S.A (MGI participações), uma empresa estatal integrante da Administração Pública Indireta de Minas Gerais, vinculada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede).
“Quando o IPSM coloca a leilão, a gente entra no outro cenário, que é quem vai comprar essa área: pode ser a prefeitura, mas também podem ser empreendimentos imobiliários, que fazem habitacionais ou fazem aqueles estilos de empreendimento em massa”, alerta Matheus. “É uma densidade muito grande de pessoas para uma região que não tem infraestrutura para receber esse volume de pessoas”.
A área de 123 mil metros quadrados foi dividida em 3 lotes, com lance mínimo de 16 milhões de reais. No entanto, o terreno batizado de “Àrea 1”, com frente para a Rua Jornalista Abrahão Sadi no Bairro Jardim Belmonte, tem mais de 99 mil metros quadrados e abriga duas nascentes. Segundo o site do MGI, ambas ocupam uma área de aproximadamente 17 mil metros quadrados, estão cadastradas no site da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e estão classificadas como Área de Proteção Permanente (APP).

As comunidades do entorno temem que a mata seja vendida para empresas do setor imobiliário. “Os serviços de saúde, educação e mobilidade já estão saturados e mesmo assim temos em andamento três empreendimentos imobiliários que, juntos, vão trazer em média 5 mil pessoas para a região”, critica Adriane. “Enquanto um empreendimento desse fica pronto em cinco anos, a população precisa lutar quinze, vinte anos por um centro de saúde, a conta nunca fecha”.
A derrubada do PL que declara valor ecológico, paisagístico, cultural e comunitário da Mata do Belmonte não é definitiva e não impede novas articulações no futuro para proteção da área. “O projeto de lei tem valor simbólico, não jurídico”, explica Adriane. “Outras áreas em BH tiveram o mesmo PL aprovado e hoje estão sendo destruídas ou sob risco iminente, mas ele era importante para a percepção e educação socioambiental da comunidade, do movimento que a defende e para dar visibilidade à área”.
Área da Mata do Belmonte. Foto: Visualização Google Earth.
Edição: Enaile Almeida