Do Moxotó ao Velhas

01/04/2026

Em um Brasil de deslocamentos climáticos recordes, a devastação dos rios é também a devastação de seus povos

[Matéria de Avelin Buniacá Kambiwá, professora, socióloga, mestra em Estudos da Ocupação, doutora Honoris Causa e ativista socioambiental, publicada nas páginas 6,7 e 8 da Revista Manuelzão 97, na editoria ” O assunto é” ; republicamos aqui com algumas edições para adaptar o texto ao formato do site. Acesse a edição 97 e as edições anteriores da Revista Manuelzão através deste link.]

Os rios são nossos avós, são eles que desenham nosso destino. Falar da luta pelos rios vivos é despertar memórias antigas que desenharam o destino de minha família e também de muitas outras, famílias que acabam se tornando refugiadas climáticas, seja pelo transbordamento das enchentes e barragens, pelo assoreamento ou pela contaminação. A desterritorialização está estreitamente ligada à saúde dos rios

A minha própria história começa à beira de um rio, o Rio Moxotó, jóia do alto sertão pernambucano, hoje bastante fragilizado pela irrigação desenfreada dos latifúndios e pelas barragens em seu leito. Houve um tempo em que ele guardava força suficiente para ser responsável por parte do ganha-pão de minha avó e minha mãe. Na década de 1970, obras de canalização trouxeram meu pai ao Moxotó, onde conheceu minha mãe, uma jovem indígena. Casaram-se enquanto o rio mudava, ficava mais fraco, secava. Quando a obra migrou para levar o progresso a outros rios, minha família também migrou.

A desconexão do território e consequentemente do rio se reflete na perda dos saberes tradicionais, na perda das tradições e em grandes confusões internas que acabam nos desconectando da cultura e do modo de viver indígena. É como estar desterrado na própria terra, como viver exilado de si mesmo, apagado, sem rio e cheio de mágoa. Durante a minha vida enquanto indígena desterritorializada, vivi sob várias situações de desconexão interna. E também vi isso na vida dos meus parentes indígenas de várias etnias, rios diversos que encontrei na minha jornada.

A migração é um processo complexo e é uma realidade crescente em um mundo em colapso. O número de deslocados climáticos tem aumentado em todo o mundo e os primeiros atingidos são os povos-território. Em 2024, o Brasil registrou um recorde de 1,13 milhão de pessoas desabrigadas e desalojadas por desastres climáticos, o maior número desde 1991.

Esse processo pode trazer intenso adoecimento, não só para indígenas fora do seu território, mas para todos aqueles que podemos chamar de gente-terra, ou gente-território. Em Minas Gerais, berço de rios enredados em memórias e violências históricas, ainda resistem pelo menos dez tipos reconhecidos de povos e comunidades tradicionais de vazanteiros. Há mais de 19 diferentes etnias indígenas originárias desse território, além das dezenas de povos de diferentes estados e países. Toda essa gente-território assiste a rios que resistem entre a morte lenta e lampejos de retomada, nos seus soluços entre a tentativa de continuar a cantar e o silenciamento imposto.

Enquanto as gentes-território que transitam entre o sertão e as metrópoles carregam em seus corpos e vidas o próprio drama desses rios: cortaram-lhes o curso, canalizaram, transpuseram, represaram, soterraram, poluíram, intoxicaram. Mas ele não deixou de ser rio, seu espírito segue ali e é eterno, às vezes em coma profundo como o Rio Watu, ferido pela ganância da Vale e o rompimento da barragem em Mariana.

Além da luta pela terra, por comida sem veneno e pela equidade de gênero, contra o racismo e os combustíveis fósseis, lutas essas indissociáveis, temos que lidar ainda com mineradoras assassinas e a sanha petroleira que silenciam suas vítimas, o agronegócio e bancadas religiosas evangélicas cada vez mais unidas e fortes; com o mega enriquecimento desses setores envolvidos em todos os tipos do que, para eles, são só negócios, enquanto para nós é corpo e vida, orientador e parente. Nessa encruzilhada entre o fim do mundo e o leilão, seguimos no limite entre reagir, renascer e costurar futuros.

É importante lembrar que não podemos falar em justiça ambiental sem examinar as causas colonialistas e capitalistas desse rastro de rios, gente, árvores e animais mortos. A filosofia do bem viver convida a outra relação: de interdependência, de parentesco, respeito e sacralidade frente à terra e às águas. Rios não são recursos: são mestres, anciãos, ancestrais encantados, que nos orientam no mundo. Perder o rio é perder a própria orientação existencial. São artérias de memória para a nossa alma, nos alinhando ao nosso eu superior. O rio é parente, avô, alimento, fé, sentido de pertença. E quando são feridos, os povos das águas, terras e florestas também adoecem.

Aos 12 anos, minha família retirante chegou a Belo Horizonte, às margens do Rio Arrudas, um rio em coma. Não consegui me adaptar à cidade, ao modo de vida distante da oralidade e do território. O adoecimento mental veio com depressão, tentativas de autoextermínio e abuso de álcool. O não pertencimento e a desconexão interna fazem parte de um processo de proteção da psique contra o colonialismo.

Avelin Kambiwá é a fundadora do Comitê Indígena Mineiro (CMI), organização indígena descentralizada que reúne indígenas e pró-indígenas em Belo Horizonte. Foto: Bruna Brandão

Meus pais, também desconectados da espiritualidade Kambiwá, buscaram soluções nas igrejas pentecostais e em centros de recuperação irregulares. Exaustos, me levaram a uma base missionária evangélica em Porto Velho, às margens do Rio Madeira — ou Rio Cuiari, que entre muitas traduções também foi chamado de Rio dos Cedros e Rio Guerreiro, mas em uma das línguas indígenas dos povos que o rodeiam, especificamente o quíchua, “Cuiari” é associado à palavra que significa “amor”. Ali, indígenas de várias etnias compartilhavam a mesma desconexão interna do território e da espiritualidade, sob a imposição de visões dualistas que não acompanham a complexidade das cosmologias indígenas.

Mas nesse compartilhamento de vazios, houve uma conexão dentro da desconexão. A floresta amazônica, os igarapés, a imensidão do Rio Madeira e seus botos nos lembravam a nossa origem como parte da natureza. As conversas com as águas nos faziam entender que éramos de outro lugar. Suprimir o nosso próprio pensamento, seja pela desconexão do território, do rio, seja pela desconexão com a cosmovisão, era muito violento para que a nossa própria robustez psicológica, emocional e espiritual conseguisse sobreviver. 

O processo de desconexão com a nossa essência tentava se impor de muitas formas. O primeiro é a migração, a desconexão com o território. A segunda, a desconexão com a cultura e o modo de viver, o exílio. E a terceira é o desencantamento da nossa relação com a vida sagrada dos rios que, de amigos e irmãos, guias ancestrais, agora são os nossos inimigos vigiados dia e noite a cada chuva na periferia das cidades. O exílio se tornava estarrecedor ao ver outros povos também exilados em busca de pertencer. Mas se conseguirmos nos unir mesmo no exílio, a resistência é possível.

Pequenas rebeliões eram movimentos de revolução interna: fumar em contexto evangélico, conversar no igarapé, estar à beira do Rio Madeira em horários proibidos, ouvir seu canto marrom e dourado ao pôr do sol enquanto os botos dançavam. Tocar o maracá, cantar canções tradicionais — atos de resistência contra o apagamento e a desconexão. Nesse movimento espontâneo, havia muitos povos, muitas etnias, muitas línguas.

Nos conectamos pela dor, por estarmos partidos, quebrados, faltantes. E nesse lugar, nossa expressão se reinventou. Éramos como a floresta: quando queimada, os brotos voltam a reverdecer. Fomos protegidos pelo Rio Cuiari. Juntos, nesta pluralidade de povos como a floresta diversa, começamos a crescer. Minha floresta interior voltou a crescer, irrigada pelas canções de um rio imenso, e minhas raízes se reconectaram à ancestralidade, à memória longa de um Rio Moxotó vivo e abundante.

A desconexão queimou minha terra, rio e floresta internos. Mas, neste espaço colonizador, percebi que minhas raízes não foram atingidas. Junto com outros indígenas, buscava o caminho do Bem Viver, fazendo essa terra novamente florescer, com os muitos rios em mim a correr em liberdade.

Cinco anos nesse exílio fortaleceram meu bioma interno junto à floresta e ao rio. Voltei a Belo Horizonte me entendendo enquanto rio incolonizável. Outros indígenas desterritorializados se uniram, todos exilados de suas culturas e territórios, e surgiu o primeiro embrião do que veio a ser o Comitê Indígena Mineiro — uma organização descentralizada de várias etnias, na busca de não andar só e de não se perder de si mesmo.

Para descolonizar o futuro é preciso quebrar o concreto que esconde o nosso leito, é preciso voltar a irrigar a nossa raiz ancestral que traz a ancestralidade presente no nosso cotidiano. E é também divulgar uma filosofia de vida antiga, o Bem Viver, que mostra o caminho (Teko Porã, que significa “bom caminho” em Guarani), principalmente para a nova geração de pessoas indígenas e não indígenas que hoje estão instrumentalizadas de computadores ou mesmo celulares. Que essas ferramentas tão presentes hoje no nosso cotidiano tenham sua capacidade de utilidade aumentada a partir da possibilidade da criação, expansão e divulgação dessa nossa identidade invisibilizada de corpo-rio para o mundo. Também é de escala mundial a possibilidade de confluência com pessoas de todos os continentes para que uma rede cada vez maior de pessoas que são rios vivos, que estão dispostas a confluir e assim melhorar a vida na terra e adiar o fim do mundo.

Em uma era onde todos perdem o significado, o senso de pertencimento e a conexão com sua sabedoria interior, os povos indígenas têm o poder de iluminar o coração da humanidade a partir da escuta da voz de nossos avós, os rios. São eles que nos confidenciam os sonhos da Mãe Terra e, serpenteando, desenham nosso destino comum. Somos rios… e não estamos à venda!

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