02/03/2026
Edição apresenta contraste entre as violências que ameaçam o direito humano à saúde ecossistêmica e as iniciativas e comunidades que reagem a essa lógica destrutiva
O Projeto Manuelzão lança mais uma edição da Revista Manuelzão, publicação produzida pela equipe de comunicação do projeto nas versões digital e impressa, com distribuição gratuita. O número 97 da revista, “Diante da encruzilhada, a resposta somos nós”, reflete sobre as contradições que seguem permeando a busca por rios, ecossistemas, povos e comunidades saudáveis.
A revista reúne reportagens, artigos e análises que apresentam o contraste entre as violências que ameaçam o direito humano à saúde ecossistêmica e as iniciativas e comunidades que reagem a essa lógica destrutiva.
No cenário nacional, o professor Marcus Vinícius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, faz um balanço da COP30, a 30ª Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, sediada na Amazônia brasileira em novembro de 2025. O professor avalia que, apesar de marcar um momento sem precedentes ao situar territórios, narrativas e propostas dos povos originários, a conferência resultou em compromissos incapazes de responder à crise planetária.
A professora, socióloga e ativista socioambiental Avelin Kambiwá, do sertão pernambucano e residente em Belo Horizonte, traça um paralelo entre o Rio Moxotó e o Rio das Velhas para mostrar que, em um Brasil de deslocamentos climáticos recordes, a devastação dos rios é também a devastação de seus povos. O texto narra a trajetória de Avelin, que, deslocada do seu território pelo enfraquecimento do Moxotó, reflete sobre como a destruição dos rios provoca o adoecimento físico, mental e espiritual dos povos que deles dependem — e como a reconexão com a ancestralidade e a filosofia do Bem Viver é caminho de resistência e cura.
Em Minas Gerais, o foco recai sobre a intensificação da pressão sobre os recursos hídricos do estado, marcado por crimes ambientais escancarados pela Operação Rejeito. Um estudo do Fórum Permanente São Francisco (FPSF) revelou que, nos últimos 26 anos, a bacia do Velhas perdeu 13,6% de vazão, volume capaz de abastecer a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) por 15 anos.
Os resultados do projeto “De olho no Velhas”, coordenado pelo presidente do FPSF, o engenheiro Euler Cruz, e pela pesquisadora Márcia Boechat, apontam a mineração como principal responsável pela redução de vazão da bacia. Um relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) constatou ainda que os municípios que mais lucram com a mineração de ferro no estado investem sete vezes mais recursos em saúde, mas registram indicadores sistematicamente piores que cidades sem mineração. A pesquisa também relaciona a degradação ambiental com o adoecimento físico e mental das populações.
A Meta 2034 emerge mais uma vez como caminho possível de enfrentamento a partir de nossa realidade local e, especialmente, a partir da abordagem ecossistêmica de que a bacia hidrográfica representa uma unidade socioambiental de diagnóstico, planejamento, organização, ação e avaliação de resultados que permite integrar natureza e história, ambiente e relações sociais.
Um pacto pela proposta foi lançado em novembro de 2025, às margens do Velhas em Santa Luzia, em celebração conduzida pelo embaixador da Meta, o médico sanitarista e professor Apolo Heringer Lisboa, idealizador do Projeto Manuelzão. A escolha de Santa Luzia como sede das ações é estratégica: o município faz parte do chamado epicentro da degradação do Rio das Velhas, que vai da foz do Itabirito à foz do Ribeirão da Mata, entre Vespasiano e Santa Luzia.
Em termos aproximados, esse segmento de 60 quilômetros de calha principal corresponde a 12% do território, mas concentra 85% da população, da poluição e do Produto Interno Bruto (PIB) da bacia. O objetivo da Meta 2034 é a volta abundante do peixe em todos os afluentes e toda extensão da calha principal do Velhas a partir de esforços concentrados no epicentro.
Celebramos nessa edição uma vitória para Minas Gerais: em agosto de 2025, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) declarou incompatibilidade do Projeto Apolo, da mineradora Vale, com os objetivos de conservação do Parque Nacional da Serra do Gandarela, barrando o empreendimento e protegendo a unidade de conservação.
Em artigo do biólogo do Projeto Manuelzão, Carlos Bernardo Mascarenhas, abordamos a importância de coleções científicas, museus e instituições de pesquisa para o conhecimento e proteção da biodiversidade.
Trazemos ainda um panorama das iniciativas finalizadas no último bimestre de 2025. Uma delas é o projeto Valorização do Patrimônio Histórico e Natural de Miguel Burnier e Engenheiro Corrêa, conduzido pelo Instituto Guaicuy, ONG de apoio às atividades do Manuelzão, nos distritos de Ouro Preto. Outra iniciativa destacada é o projeto Empoderamento Jurídico, desenvolvido pelo Núcleo de Direito Ambiental do Projeto Manuelzão em parceria com o Instituto Guaicuy e o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), que ofereceu assistência e assessoria técnica e jurídica a comunidades espalhadas por 28 cidades em Minas.
Um dos produtos do projeto foi a publicação do livro Empoderamento Jurídico e Socioambiental, que reúne relatos da experiência vivenciada nas comunidades impactadas e acompanhadas. O livro sintetiza os dossiês históricos do percurso vivido, além de apresentar uma narrativa acessível para se compreender como o Manuelzão enxerga e atua no complexo dos grandes empreendimentos, principalmente os minerários.
Por fim, apresentamos a finalização do segundo ciclo do Programa de Educação Ambiental do Pró-Mananciais, desenvolvido pela equipe de educação ambiental do Manuelzão em colaboração com a Copasa em 41 escolas ao longo da bacia do Velhas.
Isso e mais está na Revista Manuelzão 97. Boa leitura!