Mineração é principal responsável por redução de vazão da bacia do Rio das Velhas

27/03/2026

Estudo do Fórum Permanente São Francisco mostra que, nos últimos 26 anos, a bacia perdeu 13,6% de vazão — volume capaz de abastecer a Região Metropolitana de Belo Horizonte por 15 anos

[Matéria de Bruno Pereira, estagiário de jornalismo, publicada nas páginas 9 e 10 da Revista Manuelzão 97, na editoria “Enfrentamentos” ; republicamos aqui com algumas edições para adaptar o texto ao formato do site. Acesse a edição 97 e as edições anteriores da Revista Manuelzão atravésdeste link.]

Enquanto o mundo discute mecanismos de justiça climática em fóruns globais, a realidade nas bacias hidrográficas brasileiras revela um abismo entre as discussões e a prática. Um retrato dessa contradição está na bacia do Rio das Velhas, onde um estudo expõe como a pressão por recursos hídricos, liderada pela mineração, avança sobre o sistema que garante água para a população. O diagnóstico aponta para um conflito entre o uso intensivo da água por setores específicos e a resiliência ambiental necessária para enfrentar as mudanças climáticas.

Nos últimos 26 anos, o nível de água do rio das Velhas vem diminuindo rapidamente. A constatação é resultado de um levantamento desenvolvido pelo projeto “De olho no Velhas”, iniciativa do Fórum Permanente São Francisco. O trabalho, que se estendeu por 14 meses, analisou nove estações de medições fluviométricas e pluviométricas distribuídas na área do Alto Velhas, entre a nascente do rio em Ouro Preto e o município de Raposos.

O estudo, coordenado por Euler Cruz e Márcia Boechat, surgiu da preocupação com a redução progressiva do nível das águas. “Quando detectamos um indício de redução de vazão, fizemos um projeto e apresentamos ao Ministério Público para ter condição de fazer um relatório bem detalhado sobre a questão das reduções de vazões no Rio das Velhas e relacionar isso com as chuvas e os lençóis freáticos”, explicou o engenheiro especializado em energia hidráulica e hidrologia Euler Cruz, presidente do Fórum Permanente São Francisco.

As medições do nível da água nas nove estações foram realizadas com apoio técnico especializado. As visitas permitiram constatar equipamentos de medição defasados e imprecisos, além de estações privatizadas que não forneciam informações sobre os níveis de água em determinados pontos. “Parece que as diretrizes dos últimos anos, principalmente do governo estadual e também do governo federal, evitam que a sociedade conheça realmente as condições ambientais que podem levar a vários tipos de insegurança, ameaças e riscos à vida”, observa o engenheiro. “Parece existir um propósito de esconder informações da sociedade”.

A coleta permitiu a criação de um banco de dados, posteriormente comparado com os dados oficiais disponíveis nos sites Hidroweb e  Hidro-Telemetria, da Agência Nacional das Águas (ANA). O estudo identificou que a atividade minerária é a maior responsável pela captação de água na bacia. O consumo também é afetado pela captação de empresas de bebidas, prefeituras e outras indústrias da região. 

As análises revelaram uma redução de 13,6% no fluxo de base da região nos últimos 26 anos. Esse percentual representa uma perda de aproximadamente 3 milhões de metros cúbicos de água, volume suficiente para abastecer a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) por 15,2 anos. 

A bacia do Rio das Velhas, especialmente em seu alto curso, é um dos polos minerários mais intensos do estado, com operações de grandes empresas de minério de ferro, como a Vale e a Anglo American, além de dezenas de outras mineradoras de médio e pequeno porte. Essa pressão se concentra justamente na região do Sinclinal Moeda, uma formação geológica que abriga os aquíferos estratégicos para o abastecimento da região metropolitana de Belo Horizonte, criando uma disputa direta e subterrânea pelo mesmo recurso.

Duas teses de doutorado sobre outorgas no Sinclinal Moeda fundamentam o estudo. Segundo dados das pesquisas, desde 2005, a captação de água feita nos lençóis freáticos supera a capacidade de reposição das chuvas. O dado é alarmante, considerando que 63% do abastecimento do Rio das Velhas provém dessas reservas subterrâneas. O rebaixamento desses aquíferos, essenciais para a segurança hídrica da região metropolitana, é uma das consequências mais graves e duradouras do modelo de exploração mineral.

Além da pressão por captação, estudos sobre os períodos secos (entre maio e setembro) e os períodos úmidos (entre outubro e abril) dos últimos 25 anos constataram uma mudança na distribuição de chuvas, o que prejudica a recarga dos lençóis freáticos. Nos períodos secos, houve uma diminuição drástica das precipitações. Já no período úmido, houve uma pequena redução na quantidade de chuvas e alteração na distribuição. Os pesquisadores atribuem essas alterações às mudanças climáticas, cujos efeitos são potencializados pela pressão antrópica.

Euler Cruz ressalta que essa é uma análise  inicial. A investigação aponta a necessidade de continuação e aprofundamento dos estudos no Velhas e em outras bacias, como a do Paraopeba e a do Rio Doce. “No caso da bacia do alto Rio das Velhas, é necessário continuar esse estudo nos próximos 50 anos ou mais”, afirma Euler. “Esse estudo inicial foi só o início da conversa. Ele tem que ser continuado, corrigido, aprofundado e complementado, tem muita coisa,  ainda, para ser feita”.

O pesquisador destaca também a importância da mobilização da população, de diversas esferas da sociedade e das autoridades diante das medidas a serem tomadas para evitar o agravamento da situação hídrica no estado. “A compra de outorgas de mineração vai continuar aumentando ou vai diminuir? As outras captações de água de indústrias, condomínios, prefeituras ou fábricas, vão continuar? E as captações de água,  não autorizadas, vão ser fiscalizadas? Os poços vão ser fechados? Vai ter gente para fiscalizar?”, questiona o engenheiro.

O Fórum Permanente São Francisco foi fundado em 2019, três dias depois do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho. Inicialmente, dedicou-se à qualidade de vida de populações que viviam próximas a regiões de mineração. Posteriormente, a área de atuação foi expandida a fim de englobar as questões mais abrangentes ligadas à sustentabilidade e ao meio ambiente. Em 2023, tornou-se oficialmente um instituto.

Visita técnica à Serra da Moeda, eixo oeste do Sinclinal Moeda, em 2023. Foto: William Dias/ ALMG

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