UFMG e comunidades mineiras se unem para investigar a lama e monitorar os rios

10/03/2026

O Grupo de Pesquisa Educação, Mineração e Território (EduMiTe) se envolve com comunidades próximas a barragens para responder à pergunta: que lama é essa?

Formação de colaboradores com kit de análise na escola estadual Josefina Wanderley Azeredo, em Nova Lima. Foto: Edumite.

Por Caio Victor Gomes

Tem sido comum para moradores das cidades às margens dos rios das Velhas e Doce se depararem com uma lama de aspecto estranho, de cheiro forte, brilho intenso e textura pegajosa. Foi essa preocupação que levou comunidades a procurarem o Grupo de Pesquisa Educação, Mineração e Território (EduMiTe), projeto de extensão da UFMG que já atuava na região por meio da bióloga e professora Daniela Campolina, uma das coordenadoras. Ela trabalha nos territórios afetados pela mineração, conectando comunidades, escolas e iniciativas de monitoramento ambiental.

O grupo passou a se fazer presente na região após as fortes chuvas que atingiram Minas Gerais entre janeiro e fevereiro de 2022, quando criaram a Rede de Monitoramento Geoparticipativo, formada por grupos de pesquisa, comunidades e pesquisadores voluntários. A iniciativa surgiu para investigar a situação das águas, da lama das enchentes e dos solos em diferentes pontos das bacias dos rios das Velhas, Paraopeba e Doce.

A partir dessa articulação, surgiu a iniciativa “Que lama é essa?”, que auxilia moradores na coleta de amostras e na utilização de fichas de campo para registrar informações sobre o local, características do material e outros dados relevantes para análise. O objetivo é investigar a origem da lama, mapear seu percurso e criar um banco de informações útil tanto para comunidades quanto para pesquisadores, dados que também podem subsidiar ações políticas ou jurídicas.

“Essas pessoas que vieram até nós estão no território e conhecem muito mais sobre ele do que a gente da universidade”, explica Lussandra Gianasi, professora da UFMG e coordenadora do EduMiTe. “Por isso, criamos uma rede de cientistas cidadãos para auxiliar na coleta de dados e no acompanhamento dos rios”.

Essa forma de atuação, ao aproximar os moradores atingidos do processo científico, amplia o acompanhamento da situação dos rios e transforma os participantes em protagonistas na compreensão do território. “Elas nos mostram detalhes que não teríamos como observar só com pesquisa de universidade”, acrescenta Lussandra.

O projeto também tem um papel formativo importante: ao aprender a registrar dados e observar mudanças no ambiente, os participantes passam a compreender os impactos da mineração de forma mais ampla e a se reconhecer como agentes de cuidado e vigilância sobre o próprio território.

Comunidade afetada

É possível observar esse movimento a partir de relatos como o de Sandoval de Souza Pinto Filho, que vive próximo a uma das áreas de monitoramento, em Congonhas, na bacia do Rio Paraopeba:

“O primeiro contato nosso com o pessoal do EduMiTe foi em 2022, quando surgiu aquela lama grossa descendo da ombreira da barragem [Casa de Pedra, uma das maiores em área urbana no país]. A gente ficou assustado, porque cobriu parte de uma horta aqui perto. Aí pegamos o material, levamos pra Lussandra analisar e desde então mantivemos contato. Depois disso, começamos a trocar informações com eles, ajudar nas coletas, mandar fotos, vídeos e fomos criando esse vínculo. Hoje a gente já entende melhor o que observar, quando registrar e como interpretar o que acontece.”

Coleta de material por Sandoval Filho. Foto: Edumite, 2026.

Sandoval é diretor de Meio Ambiente e Saúde da União de Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccon). Desde 2012, ele acompanha de perto os riscos relacionados à barragem Casa de Pedra. “Em 2012, quando denunciamos o surgimento de vazamentos, fomos chamados de doidos. Diziam que era coisa normal, uma nascente”, relembra. “Só depois de Mariana, em 2015, é que a percepção de risco mudou”.

Para ele, o EduMiTe mudou a forma como a comunidade se relaciona com o território e com a própria ciência. “A gente ganha, em grupo, autoridade técnica. Temos condições de produzir análises, de entender boletins e conversar de igual pra igual com especialistas. Isso fortalece nossa voz”, afirma.

Sandoval destaca ainda o papel do grupo em traduzir informações técnicas que, de outro modo, seriam inacessíveis à população. “Os relatórios oficiais das mineradoras e da ANM [Agência Nacional de Mineração] estão cheios de sigilo e linguagem técnica. A ‘dona Maria’ que mora debaixo da barragem nunca vai entrar num site para entender aquilo. O EduMiTe faz o caminho inverso: compila, traduz e devolve o conhecimento de forma que a gente possa agir.”

Mapa geral da rede de coleta de 2022 do Edumite.

A atenção para a lama não é recente. Os crimes ambientais de Mariana, em 2015 e Brumadinho, em 2019, mudaram para sempre a percepção de risco das comunidades próximas às barragens. Nessas tragédias, milhares de pessoas tiveram suas vidas impactadas, rios foram contaminados e a devastação ambiental se tornou visível.

Desde então, qualquer alteração nos rios, qualquer resquício de lama com cheiro ou textura incomuns, desperta alerta imediato. Esse histórico reforça a importância do monitoramento participativo: mais do que ciência, ele representa um mecanismo de proteção e protagonismo para as próprias comunidades.

Monitoramento de Bacias

Antes mesmo do “Que lama é essa?”, o EduMiTe já trabalhava com o mapeamento e monitoramento de bacias hidrográficas, iniciativa que desde 2022 publica boletins sobre barragens em níveis de alerta ou emergência. Dessa atuação surgiu, em 2024, o Observatório de Barragens de Mineração (OBaM), que já rendeu uma parceria com a Revista Brasileira de Educação Básica. O projeto analisa os impactos da mineração nas bacias e mapeia áreas de risco em Minas Gerais, gerando relatórios fundamentais para compreender o cenário de forma mais ampla.

Segundo Lussandra, embora a Agência Nacional de Mineração (ANM) publique relatórios periódicos sobre o estado das barragens, esses documentos são de difícil acesso e pouco compreensíveis para quem vive nos territórios. O trabalho do EduMiTe busca traduzir essas informações técnicas e cruzá-las com o que os moradores observam no dia a dia, aproximando o conhecimento científico da realidade das comunidades.

Com essa abordagem, o grupo não busca apenas responder a emergências como as de Mariana e Brumadinho, mas também construir ferramentas de prevenção e informação que beneficiem tanto moradores quanto pesquisadores.

Educação e Juventude

Lussandra compartilha que um dos grandes sonhos do EduMiTe é ver as escolas se tornarem espaços ativos de monitoramento ambiental. Para ela, a educação é uma ferramenta fundamental para formar novas gerações capazes de observar e compreender o território em que vivem.

O projeto busca estimular professores e estudantes a desenvolverem seus próprios bancos de dados sobre córregos, rios e nascentes próximos às escolas. A proposta é integrar a prática científica ao cotidiano escolar, conectando o aprendizado em sala de aula ao cuidado com o meio ambiente. Essa iniciativa amplia o alcance do EduMiTe e reforça seu caráter formativo, cujo propósito é construir conhecimento coletivo e fortalecer o vínculo das comunidades com o território.

Edição: Enaile Almeida

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