Oficinas do Empoderamento Jurídico no Sul de Minas discutem mineração de terras raras

07/10/2026

Povos e comunidades tradicionais da região manifestam preocupação com o avanço de projetos de mineração sobre seus territórios e cobram o direito à consulta prévia

Na dinâmica do barbante a Importância da troca e busca de forças para somar e lutar. Foto: Acervo Projeto Manuelzão.

Por Cláudia Marques

Entre 3 e 6 de julho, o Projeto Manuelzão, por meio do Instituto Guaicuy, realizou mais uma etapa das Oficinas Territoriais de Formação, Educação Ambiental e Minerária nas cidades de Poços de Caldas, Caldas e Andradas, no Sul de Minas. As atividades são promovidas em parceria com o Movimento Nacional pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e lideranças comunitárias de cada território.

Construídas de forma coletiva, as oficinas respeitam as especificidades locais e valorizam os conhecimentos das comunidades. O objetivo é fortalecer a consciência ecológica, incentivar a defesa dos territórios e destacar suas potencialidades, com uma formação voltada à realidade de cada região.

O tema da rodada, a exploração de terras raras, é hoje um dos principais assuntos em debate no Sul de Minas. A escolha atendeu a uma demanda das próprias comunidades, que expressaram preocupação com o avanço dos projetos em rodas de conversa realizadas em abril pelo projeto Empoderamento Jurídico e Socioambiental.

Ao longo dos quatro dias, a equipe apresentou, em linguagem acessível, temas jurídicos de interesse local e ofereceu assessoria e esclarecimentos. Entre os assuntos debatidos estavam o licenciamento ambiental e minerário, a Lei Geral do Licenciamento e seus reflexos sobre os territórios, o Protocolo de Consulta e a relação entre a mineração de terras raras e a saúde.

A advogada Maria Vitória Caldareli, integrante do Empoderamento Jurídico, relata que cada comunidade chegou às oficinas com um repertório próprio. A comunidade quilombola ainda não havia se aprofundado no licenciamento das terras raras. As lideranças do povo indígena Kiriri demonstraram maior familiaridade com as questões políticas e ambientais da região. Já a comunidade cigana Calon sabia da chegada da mineração, mas desconhecia a dimensão do processo de licenciamento. Essa diversidade moldou o conteúdo de cada oficina e enriqueceu as trocas.

Para Maria Vitória, atuar junto a comunidades vulnerabilizadas pela mineração é uma experiência singular. Num cenário de conflitos socioambientais complexos e interesses divergentes, a presença no território reforça, segundo ela, a importância dos núcleos de advogados populares. “A educação em direitos é uma parte essencial do projeto e traz resultados diretos na vida das pessoas, revelando a essência do projeto, que é o empoderamento jurídico”, afirma.

Jéssica Galvão, também advogada do projeto, avalia que a ida a campo foi muito positiva. Segundo ela, muitas pessoas já tinham alguma referência sobre os instrumentos jurídicos, mas as oficinas permitiram aprofundar a compreensão sobre sua aplicação. “O contato direto com as comunidades permite uma escuta verdadeiramente ativa de suas demandas, preocupações e expectativas, além de possibilitar a percepção das especificidades culturais, territoriais e sociais que permeiam cada contexto”, afirma. Para ela, mesmo por um período limitado, a vivência no território torna a atuação jurídica e institucional mais qualificada e alinhada às necessidades concretas.

A programação começou em Caldas, na Comunidade Quilombola dos Barreirinhos, com debates sobre o protocolo de consulta. Foram abordados o que é a consulta livre, prévia e informada (CLPI), os direitos constitucionais das comunidades, a autoidentificação de povos e comunidades tradicionais, o funcionamento do protocolo e a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata dos direitos de povos indígenas e tribais.

Após a roda de conversa, o Núcleo de Direito Ambiental encaminhou um ofício ao Comitê Interinstitucional sobre Povos Tradicionais de Minas Gerais (JusPovos) para denunciar a situação de vulnerabilidade social da comunidade. Certificado pela Fundação Cultural Palmares, o quilombo tem necessidades urgentes, como roupas de frio, alimentos e apoio humanitário. As condições observadas durante a atividade evidenciam a precariedade vivida pelos moradores e a necessidade de medidas imediatas.

Também em Caldas, os Ibiramã Kiriri do Acré receberam a equipe do Manuelzão para discutir as principais ameaças ao território, identificar sua localização e entender como a comunidade se organiza para protegê-lo.

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Coordenadora das oficinas e advogada do projeto, Márcia Lopes aponta como uma das fragilidades a circulação de informações e narrativas que dificultam a mobilização diante da chegada de grandes empreendimentos. “Uma das maiores ameaças são essas falsas narrativas difundidas no território, sem que as pessoas entendam o que está acontecendo. Grandes empreendimentos acabam inseridos nesse contexto e essas narrativas podem fragilizar os movimentos locais e impedir a mobilização social”, afirma.

As comunidades também relataram distanciamento e falta de reconhecimento por parte do poder público e de outros espaços de decisão. Segundo a advogada, representantes de alguns povos afirmaram não ter sido incluídos ou convidados para momentos importantes de discussão sobre seus territórios. “Garantir visibilidade e oportunidade para que esses povos se manifestem é reconhecer que eles são componentes do território”, afirma.

Em Andradas, a comunidade cigana Calon conduziu discussões sobre os processos minerários e seus impactos na saúde, tendo como referência o mapa da bacia hidrográfica da região, e destacou a importância do Protocolo de Consulta. Segundo a própria comunidade, o instrumento busca garantir que os povos ciganos sejam ouvidos antes de qualquer decisão, governamental ou privada, que possa afetar seus territórios, seu modo de vida ou sua cultura.

Durante a oficina, surgiu a proposta de enviar um ofício ao Ministério Público Federal (MPF) relatando a ausência de consulta prévia sobre os projetos de terras raras e reivindicando que ela seja realizada. Após as oficinas, os Calons também protocolaram ofício junto ao JusPovos.

A falta de consulta livre, prévia e informada aos povos e comunidades tradicionais foi um dos principais pontos levantados nos encontros e, segundo Maria Vitória, o tema de maior repercussão entre os participantes. As oficinas buscaram ainda esclarecer o que as comunidades podem fazer quando já possuem um protocolo, uma das dúvidas mais frequentes, conforme Márcia Lopes. “Percebemos que algumas comunidades tinham o protocolo, mas ainda se perguntavam: ‘E agora, o que acontece?’. Foi importante explicar que ele é um instrumento para todo e qualquer acesso à comunidade, não apenas para a chegada de empreendimentos”, explica.

Ainda em Andradas, representantes do Projeto Manuelzão participaram de reunião do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), que reuniu produtores de café, agricultores familiares e representantes da gestão municipal.

Preocupação com água, ar e modos de vida

Para as comunidades, a chegada da mineração de terras raras representa uma possível ameaça à qualidade ambiental e aos seus modos de vida. Segundo Márcia Lopes, as preocupações mais frequentes envolvem a água e o ar, além das transformações que a atividade pode provocar nos territórios. “Todas as comunidades que visitamos fazem uso da água e demonstraram preocupação com a segurança e a qualidade dos seus poços. Também houve preocupação com a poluição do ar. Esses foram os pontos mais destacados”, relata.

De acordo com a advogada, as comunidades manifestaram, de início, posição contrária aos empreendimentos, embora reconheçam a dimensão da pressão econômica e mineral na região. Ao mesmo tempo, ressaltaram a necessidade de serem ouvidas e de ter acesso às informações e aos estudos necessários para compreender os possíveis impactos.

Entre os Calons, a percepção dos riscos varia, já que integrantes do povo vivem tanto em áreas urbanas quanto rurais, inclusive como produtores rurais. Eles também manifestaram preocupações com a segurança e com seu modo de vida. Maria Vitória Caldareli afirma que, apesar das particularidades, a inquietação foi comum a todos os territórios. “Todas as comunidades demonstraram preocupação com a alteração de seus modos de vida com a chegada da mineração. A preocupação foi especialmente com a alteração da qualidade da água e o avanço da atividade minerária sobre seus territórios”, afirma.

Ao final da oficina de Andradas, em 5 de julho, a Comunidade Cigana Calon definiu uma série de encaminhamentos para a defesa de seus direitos, o acompanhamento dos projetos de mineração e o fortalecimento da articulação entre territórios.

Terras raras no Planalto Vulcânico

O Planalto Vulcânico do Sul de Minas, onde foram realizadas as oficinas, abriga algumas das reservas de Terras Raras mais promissoras do país. Ao mesmo tempo, comunidades tradicionais, pesquisadores e o Ministério Público travam uma disputa judicial contra projetos de mineração que, segundo eles, avançam em ritmo incompatível com a complexidade dos riscos socioambientais envolvidos.

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Além das oficinas, o Projeto Manuelzão, por meio de seu Núcleo de Direito Ambiental/Empoderamento Jurídico, protocolou uma Ação Civil Pública (ACP) pedindo a suspensão das licenças prévias (LP) concedidas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) ao Projeto Colossus, da Viridis Mineração, e ao Projeto Caldeira, da Meteoric Caldeira Mineração. Ambos preveem a extração e o beneficiamento de terras raras em Poços de Caldas, Caldas e Andradas.

A ação sustenta que, como apontaram as comunidades, a consulta prévia, livre e informada (CLPI) não foi realizada, embora as licenças já tenham sido concedidas, em desacordo com o artigo 6º da Convenção nº 169 da OIT. Segundo o documento, os empreendimentos podem afetar diretamente comunidades na área de influência dos projetos, com impactos sobre territórios, modos de vida e recursos hídricos.

A ACP argumenta ainda que o licenciamento deveria ter sido conduzido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável por empreendimentos cujo processo produtivo envolva risco radioativo. Segundo a ação, os projetos Colossus e Caldeira utilizam extração e lixiviação ácida de argilas que contêm radionuclídeos naturais, especialmente urânio e tório.

Nas amostras analisadas, o próprio estudo ambiental da Meteoric (o EIA/RIMA) registra radioatividade de até 13,74 becquerel por grama, unidade que mede a radioatividade de um material. Esse valor está acima do limite de 10 becquerel por grama definido pela norma brasileira (Resolução CNEN nº 208/2016). Também é mais de dez vezes o patamar de um becquerel por grama usado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e pela União Europeia. O estudo prevê ainda aumento progressivo da radioatividade devido à recirculação de materiais, fator que, para a ACP, reforça a competência federal.

Outro argumento é que a licença estadual invadiu a competência do Ibama também pelo caráter interestadual dos impactos, sobretudo sobre as águas subterrâneas que abastecem estâncias hidrominerais em São Paulo. O EIA/RIMA informa que os empreendimentos estão na Bacia Hidrográfica Interestadual do Rio Grande, cuja área de drenagem se divide entre Minas Gerais (60,2%) e São Paulo (39,8%). A Área Diretamente Afetada (ADA) do Projeto Colossus fica na sub-bacia do Ribeirão das Antas, que deságua no Rio Pardo, curso d’água federal que percorre os dois estados.

O estudo da Meteoric também identifica pontos de captação sob jurisdição da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o que indica a existência de recursos hídricos de domínio da União na área de influência. Municípios paulistas como Águas da Prata, a 23 km, e São João da Boa Vista, a 32 km, compartilham a bacia e podem sofrer impactos, inclusive econômicos, sobre o setor de água mineral.

Povos e comunidades diretamente afetados

Os dois projetos têm potencial de impacto regional e estão previstos para uma área de elevada sensibilidade socioambiental e hídrica. Ambos são classificados como Classe 6 pela DN 217 do Copam, o mais alto grau de potencial poluidor e degradador. Entre os impactos apontados estão possíveis danos a bens culturais protegidos e a áreas de proteção ambiental, além da remoção de comunidades inteiras.

Perto dos empreendimentos vivem três comunidades indígenas, dos povos Kiriri, Xukuru Kariri e Xukuru Kariri Wakanã, e a Comunidade Quilombola dos Barreirinhos. Em Poços de Caldas residem, segundo registros oficiais, 46 famílias do povo cigano Calon.

TerritóriosDistância do Projeto Caldeira (Meteoric)Distância do Projeto Colossus (Viridis)
Quilombo dos Barreirinhos12 quilômetros13 quilômetros
Território Kiriri8 quilômetros12 quilômetros
Território Xucuru Kariri Wakanã9,5 quilômetros18 quilômetros
Território Xucuru Kariri12 quilômetros21 quilômetros

As 46 famílias Calon vivem principalmente nos bairros Jardim Kennedy e Jardim Esperança, na zona sul, e Itamaraty e Chácara Poços de Caldas, na zona leste. Os bairros da zona sul estão a apenas dois quilômetros da ADA do Projeto Colossus, e a distância até o empreendimento da Viridis é de cerca de 15 quilômetros.

Para Maria Vitória Caldareli, a atuação jurídica direta nos territórios reforça a importância da advocacia popular e da educação em direitos. “Nossa presença no território reforça a importância de termos núcleos de advogados populares apoiando as comunidades atingidas pela mineração”, afirma.

O Instituto Guaicuy ajuizou a ACP em conjunto com outras seis entidades, para assegurar o direito à Consulta Livre, Prévia e Informada da Comunidade Quilombola Barreirinhos, das comunidades indígenas Ibiramã Kiriri do Acré, Xukuru Kariri e Kariri Wakanã e da Comunidade Cigana Calon.

Edição: Enaile Almeida

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